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GRAMOFONE

às voltas com os discos às voltas.

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[NA AGULHA] Homem em Catarse - Sem Palavras | Cem Palavras

Após ter percorrido o interior, quer o seu quer o do país, o Homem em Catarse decidiu dar (ainda) mais protagonismo à parte instrumental. O mesmo será dizer à sua guitarra que, entre pedais e a míriade de efeitos, ganha uma belíssima esquizofrenia, valendo como a palete de cores do músico. Se bem que em «sem palavras | cem palavras» estreiam-se nas mãos de Afonso Dorido (o Homem Em Catarse) o piano e o sintetizador.

São, aliás, as teclas do piano que levantam a cortina deste trabalho editado no final de Janeiro, com o apoio da Fundação GDA. “Tu Eras Apenas Uma Pequena Folha” floresce progressivamente, regada pela melodia pueril das teclas pretas e brancas, num estilo neoclássico. São essas mesmas teclas que, mais adiante, visitam docemente a “Calle Del Amor”, quiçá inspirada numa das tours do músico ao país vizinho.

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Com “Hey Vini!” acorda o Homem Em Catarse tal como o conhecemos, embora traga no regaço uma batida electrónica simples, ao sabor da qual vão esvoaçando as cordas cada vez mais distorcidas da sua guitarra. Uma fórmula contida novamente em “Yo La Tengo”, ganhando aqui uma camada adicional sob a forma de uma voz coral.

A referida veia rítmica electrónica encontra-se igualmente hospedada em “Hotel Saturnyo”, ganhando aqui mais destaque e puxando por harmonias mais acutilantes e esfuziantes, exibindo alguma maquilhagem de shoegazing. Um pouco à semalhança de “Danças Marcianas”, onde o ritmo volta a subir, como um troço feito a bordo de um bólide mais potente e veloz, mas sempre de janelas abertas.

O post-rock de timbre rural, emanando portugalidade, que é já emblema do Homem Em Catarse, vem-nos à memória em temas como “Lembro-me De Ti Mesmo Quando Não Me Lembro” (que poderia muito bem ser uma das tiradas presentes nos poemas normalmente cantados por Afonso Dorido em trabalhos anteriores), ou “Marie Bonheur”, com um requintado apontamento de cordas no seu estádio final.

Em “Mar Adentro”. avançamos a bordo de um drone submarino, apreciando novas paisagens sintetizadas, mas gozando do conforto oferecido pelos jogos de acordes familiares da sempre inspirada guitarra de Afonso Dorido.

«sem palavras | cem palavras» encerra como abre, ao som de um piano isolado, cujas teclas parecem exibir a poeira boa de qualquer viagem que se preze, de qual obra com a qual valha a pena nos cruzarmos, ressoando simultaneamente um amadurecimento comum num instrumento a ganhar confiança nesta sua estreia nas mãos do Homem Em Catarse.

À imagem do que o título do disco, decalcado de um poema assinado pelo próprio músico, possa transparecer, ao longo desta dezena de composições, mesmo sem recorrer a qualquer vocábulo, o Homem Em Catarse não deixa de dizer tudo o que lhe vai na sentida e delicada alma.

 

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