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GRAMOFONE

às voltas com os discos às voltas.

GRAMOFONE

às voltas com os discos às voltas.

[ENTREVISTA] Dan Mangan: menos pode ser mais.

Dan Mangan editou um dos nossos discos preferidos de 2018. «More Or Less» tornou-se o quinto álbum na discografia deste canadiano que se inspirou na meia-idade e na vida parental para construir as suas mais recentes canções. Com esse crescente amadurecimento, veio também a descoberta dos podres da indústria musical, e consequentemente a vontade de edificar ferramentas que auxiliem os músicos e os organizadores a escapar às rédeas da máquina corporativa.

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GRAMOFONE: Este álbum parece mais emocional que os trabalhos anteriores. É uma espécie de balanço de meia-idade?

DAN MANGAN: Penso que todos os meus álbuns são, de certo modo, emocionais, mas diria que «More Or Less» é aquele que envolve maior seriedade. Acho que existe uma grande dose de postura na música – as pessoas apresentam-se a si e as suas canções da forma como querem ser percepcionadas, e às vezes funciona e o público pensa que és cool; noutras vezes, não, e pensam que estás a forçar demasiado. Toda a indústria se baseia neste princípio: vender o mito do cool. Eu nunca fui cool, e em vez de perseguir uma aceitação estranha e ilusória, queria fazer algo que fosse o mais honesto possível. Isso não significa que desejasse fazer algo insosso, claro que não. Mas não queria fazer algo às escuras. Acho que parte de envelhecer é preocupares-te menos com aquilo que as pessoas pensam. Quando és mais jovem, dizes ao mundo que não queres saber do que pensam, mas mesmo que o digas são tretas, caso contrário não sentirias necessidade de o bradar. Tornas-te mais sólido com a idade, e sinto-me bem no momento em que actualmente me encontro.

GRAMOFONE: Comentaste que sentes que este disco te retrata mais que os seus antecessores. É devido a esta fase actual, ou sentes-te mais próximo a nível musical?

DAN MANGAN: Acho que se deve ao facto das canções saírem directamente da minha própria experiência, ou do meu ponto de vista. No passado, escrevia frequentemente a partir duma perspectiva omnisciente, ou a partir de uma personagem imaginada mentalmente. Em canções como “Lay Low” ou “Cold In The Summer”, em particular, os tópicos explorados são extremamente relevantes na minha vida real actual.

GRAMOFONE: A maioria das canções, senão todas, soam bastante despretensiosas e minimalistas, como se tivesses tentado usar o menor número de instrumentos e sons possível. Isto foi algo intencional ou simplesmente a forma como o disco percorreu o seu caminho?

DAN MANGAN: Atribuo esse poder minimalista ao Drew Brown (que produziu o álbum). Eu queria adicionar um milhão de coisas, mas ele manteve um padrão muito restrito daquilo que me permitia usar nas gravações. Caso a canção já tivesse uma boa base, ele não queria preenchê-la com demasiada informação. Às vezes eu protestava, mas ele pedia que deixasse a canção repousar durante algumas semanas. E, após algumas semanas, ouvia-a novamente e dizia “Sim, está feita, não precisa de mais nada”. Algo de que falámos muito foi acerca de criar um clássico moderno, algo que soe a 2019, mas que pudesse ter sido concebido nos últimos 40 anos, como «Astral Weeks», de Van Morrison ou «Pink Moon», de Nick Drake. Esses discos são intemporais, e eu queria que este trabalho também tivesse pernas para ser relevante daqui a 40 anos.

GRAMOFONE: As letras das novas canções reflectem muito sobre a família. Que tipo de mensagem quiseste passar?

DAN MANGAN: Apenas a ideia de que é estranho ser pai e músico ao mesmo tempo. Quando és jovem, ser músico é viajar e ir em busca dos teus sonhos. Quando te tornas pai, a tua vida é limpar merda duma variedade de coisas.

GRAMOFONE: Recentemente fundaste a Side Door (plataforma que permite a contratação de artistas para concertos em ambientes caseiros ou locais mais incomuns). Podes explicar o que te levou a fazê-lo? Está relacionado com o facto de te sentir mais deslocado relativamente à indústria musical hoje em dia?

DAN MANGAN: Quando não tens um agente, não consegues chegar às promotoras ou aos clubs, e não consegues ter um agente até conseguires vender bilhetes, e não consegues vender bilhetes sem audições no Spotify ou burburinho da Pitchfork. E, para onde quer que te vires, encontras portas fechadas e crises existenciais para os artistas. Existe uma fossa enorme no mercado: aqueles que estão dentro e aqueles que estão fora dele; e mesmo metade das pessoas que estão dentro, sentem-se excluídos de algum modo. O negócio da música é uma porcaria, é desmotivante. Alimenta-se do facto dos artistas estarem dispostos a fazer quase tudo (gratuitamente) para que lhes saia a lotaria de terem uma carreira na música. Quando eu comecei, tocava para 20 pessoas num club, não fazia nenhum dinheiro e sentia que não causava o mínimo impacto. Por outro lado, tens milhões de pessoas que adorariam convidar artistas para os seus espaços, e não sabem como encontrá-los, além de que é super intimidante abordar pessoas para esse fim. A Side Door remove de forma simples todas essas as barreiras, e permite aos artistas ganhar a vida com ou sem as sanções criadas pela indústria; é uma economia dirigida directamente à audiência, onde apenas precisas de alguém que acredite no teu trabalho e te convide para a sua comunidade. É uma situação vantajosa para todas as partes envolvidas. Os anfitriões são influenciadores, e pode assim levar talentos extraordinários para o seu universo, ao passo que o público assiste a performances num contexto incrível e intimista, e os artistas sentem que estão realmente a chegar a algum lado e a fazer dinheiro ao longo do caminho.