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GRAMOFONE

às voltas com os discos às voltas.

GRAMOFONE

às voltas com os discos às voltas.

[discos de 2016] David Bowie | Blackstar

À imagem de tudo quanto é plataforma musical, também o Gramofone se presta a elencar a lista dos seus álbuns predilectos do ano que vai chegando ao seu final. O nosso critério não pretende enumerar os trabalhos por ordem de preferência, simplesmente listá-los para demonstrar o que mais temos escutado nos últimos 12 meses (podendo inclusivamente englobar algum disco lançado no decorrer de 2015).

O primeiro destaque vai para o trabalho com que David Bowie nos presentear dia antes de deixar o mundo dos vivos. Não sabemos se o choque fez com que os ouvidos estivessem mais atentos a Blackstar, ou se se dispersaram no meio de tantas reacções e homenagens.

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Deixo aqui na íntegra análise ao disco, produzia originalmente para a Rua de Baixo aquando do trágico acontecimento:

"Devido à trágica cronologia de eventos após o lançamento deste álbum, existe o risco de descurar-se o conteúdo musical deste rico disco de despedida, na ânsia de procurar símbolos, imagens, palavras que nos indiquem e clarifiquem o segredo que David Bowie logrou guardar tão bem até à sua última hora.

Lançámos então o desafio de deslindar musicalmente os contornos destas sete faixas que o compõem.

“Blackstar” arranca irrequieto e assombrado, por mão da canção homónima, ritmo descoordenado e coros penumbrosos. E logo nesta primeira faixa Bowie repescou o saxofone, como uma criança que vai à caixa de brinquedos buscar o seu favorito, o primeiro para o qual apontou quase sem saber falar, como que querendo brincar uma derradeira vez com ele.

E logo chega a esperança, na mesma música, desabrocha o mundo novamente, como que lembrando-se que temos este disco ainda para desembrulhar e podemos até enxugar as lágrimas com o papel de embrulho, intencionalmente escuro.

«‘Tis a pity she was a whore» arranca desde logo com um ritmo mais forte e definido que a canção inicial. Traz-nos novamente o saxofone aos ouvidos, desta feita num registo mais obtuso e jazzístico, dando quase a sensação de desafiar a voz de Bowie, que aqui se pauta num registo mais clássico deste génio britânico, com diferentes timbres a marcarem presença por entre as distintas divisões da canção.

Este segundo tema do disco havia sido lançado originalmente como lado B de «Sue (Or In A Season Of Crime)», há cerca de 2 anos.

«Lazarus» recupera o ambiente inaugurado pela canção homónima do disco. Num ritmo pausado, deixando respirar os diferentes instrumentos que nos voltam a remeter para um cenário vincadamente obscuro e fumarento, bafejado pela corrente jazzística que açambarca ainda mais notoriamente do grupo de instrumentos reunidos em volta da câmara ardente.

Contendo possivelmente a letra mais directa, através da qual aquilatamos mais facilmente a etapa que Bowie cumpria ultimamente, trata-se de um registo sonoro que permite imaginar a calma e positivismo com que o autor imaginou o seu desaparecimento, ainda que com constantes esgares de incerteza a romper por entre os versos.

«Sue (Or In A Season Of Crime)», lançada inicialmente na colectânea “Nothing Has Changed”, de 2014, é a canção seguinte, e relança a inquietude. Bateria nervosa, guitarra em riff repetitivo, saxofone inseguro e tímido por detrás da barreira de som, e a voz a desaparecer em nuvens fantasmagóricas no final dos versos. No final de contas, assemelha-se incrivelmente a uma jam session, daqueles gravadas à primeira tentativa, em que as diferentes facções parecem não saber exactamente o que poderão encontrar ao virar da pauta.

Se «Lazarus» contém os versos mais claros do disco, o galardão inverso é entregue a «Girl Loves Me», repleto de calão e Nadsat (linguagem criada no filme “Laranja Mecânica”), e com dois refrões assentes numa só frase cada um, repetida em série. O instrumento principal do tema acaba mesmo por ser a voz de Bowie, com os restantes músicos tomando mais protagonismo apenas no términos de cada frase do maestro.

«Dollar Days» leva-nos a uma paisagem mais tranquila novamente, pese embora a carga pesada contida na letra, baloiçando no possível trocadilho “I’m dying to/I’m dying too”. Será provavelmente a canção mais linear do disco, onde até o omnipresente saxofone tem um comportamento mais pop, espraiando-se por entre verso e refrão até ao outro.

Para o final ficou «I Can’t Give Everything Away», que nos traz imediatamente referências a outras composições de Bowie, como «Thursday’s Child» e «A New Career in a New Town», respectivamente através dos teclados e harmónica.

Ao passo que informa não poder oferecer-nos mais canções, Bowie aparenta trazer estas reminiscências para que nos relembremos dos mais diversos cardápios que nos deu ao longo carreira. Como se precisássemos que nos lembrasse de tamanho tesouro.

A canção em si remete-nos para referido ambiente mais soturno e poeirento de «Blackstar» e «Lazarus», ainda que revestida num tecido mais leve e relaxante, mas prosseguindo os devaneios musicais talhados desde a abertura deste trabalho final De David Bowie.

Caso tal não se depreenda ao longo da leitura deste texto, confirmamos neste último parágrafo que se trata de mais uma obra superior deste compositor maior. Bowie traçou a sua vida da forma que bem entendeu, mas decidiu partir da forma que nós mais gostaríamos, ainda que lacrimejemos: com um derradeiro disco brilhante, para nos ajudar a entender e a sobreviver ao final, físico, de um Starman que continuará a brilhar, reflectindo todo o seu legado, directo e indirecto.»